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O poder de reaprender

Reaprender passa por reconhecer que toda área tem uma história, um legado, um modo de fazer

Transições fazem parte da vida de quem lidera. Encerramos etapas, celebramos o que foi construído e seguimos em frente, não por inquietação, mas pela busca genuína de novos desafios. Em cada mudança, há um convite: levar o que aprendemos e, ao mesmo tempo, reaprender o necessário para fazer sentido no novo contexto. É assim que a liderança evita a acomodação e continua relevante.

Chegar a uma nova área ou organização mexe com certezas. A experiência e a senioridade entram pela porta, mas não bastam sozinhas. O que sustenta o começo é a combinação entre bagagem e postura. A bagagem traz método, consistência, visão de longo prazo, capacidade de priorizar. A postura traz humildade, escuta, vontade de jogar junto, respeito pelo que já existe. Quando essas duas dimensões caminham juntas, o primeiro passo deixa de ser uma imposição de estilo e vira um gesto de encontro.

Reaprender começa por reconhecer que toda área tem uma história, um legado, um modo de fazer. Em vez de substituir narrativas, é preciso compreendê-las. Conversar com as pessoas de diferentes níveis e funções ajuda a enxergar o que a área pensa de si mesma, onde se orgulha, onde sofre, o que teme perder e o que deseja transformar. Essas conversas abrem caminhos que nenhum organograma mostra: atalhos de confiança, gargalos invisíveis, talentos silenciosos que carregam a operação.

Também é momento de testar hipóteses com cuidado. O desejo natural de imprimir ritmo precisa vir acompanhado de respeito pelo tempo dos outros e pela cadência dos processos. Entrar jogando junto significa compartilhar responsabilidade: construir consensos quando necessário, tomar decisões quando for preciso, e saber diferenciar uma coisa da outra. O objetivo não é “deixar a minha marca”, e sim somar para que a área fique melhor do que era com as pessoas a bordo.

Numa transição, o olhar de iniciante é um ativo. Ele permite ver arestas que o hábito normalizou e oportunidades que o dia a dia não enxerga mais. Mas esse olhar ganha potência quando se ancora na experiência acumulada: medir risco, priorizar bem, comunicar com clareza, proteger a integridade do processo. Reaprender não diminui a senioridade; qualifica. É o movimento de quem sabe muito, mas não se comporta como dono da verdade.

Ao final, transições bem-feitas honram o passado, organizam o presente e lançam pontes para o futuro. Para quem está vivendo uma mudança agora, fica um convite simples e exigente: chegue com lastro e com leveza. Traga conhecimento, sim, mas traga também curiosidade. Respeite legados, pergunte mais, escute melhor, convide para construir. Quem reaprende não recomeça do zero, recomeça de um lugar melhor.